A díade Mãe–Bebê: Depressão pós parto e os riscos para o desenvolvimento do bebê – Prof(a). Patrícia Menezes Vilas Boas Lapa – Clinica Mariana Eloy – CLIMAE | Candeias, BA.

A díade Mãe–Bebê: Depressão pós parto e os riscos para o desenvolvimento do bebê – Prof(a). Patrícia Menezes Vilas Boas Lapa

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A interação mãe- bebê nos primeiros meses de vida é de extrema importância para o desenvolvimento humano.  A voz materna, nesta relação, é primordial à aquisição da linguagem, desenvolvimento da socialização e subjetivação do sujeito. Refiro-me a voz capaz de capturar a atenção do bebê para o olhar da mãe, suas perguntas, elogios e descrições e não àquela voz habitual da mãe/mulher em seu dia a dia. Trata-se de um registro de voz que ocorre naturalmente em mães saudáveis quando dirigem palavras a seus bebês: o manhês.

Esse registro ou forma de voz modificada ocorre instintivamente quando uma mulher saudável encontra-se diante de um bebê. É um ajuste vocal que se traduz em modificações na  entonação, prosódia, sintaxe e morfologia, resultando em alongamentos de silabas, repetições silábicas e agudização da voz. Essa fala diferenciada dirigida aos bebes faz com que os mesmos se interessem e procurem com o olhar a pessoa que a ele se dirige, convocando-o para uma troca amorosa e “dialógica”, na medida em que a mãe supõe que ali exista um sujeito capaz de entender e corresponder aos seus enunciados e convites amorosos: Ex.: “Meu nenê quer um bezinho da mamá?Hummmxelinho? “

Este investimento da mãe ou do cuidador primordial é o que proporciona espaços para que o bebê encontre condições de ser um sujeito de linguagem e não apenas um corpo a ser cuidado nos momentos das trocas de fraldas, dos cuidados com os episódios de cólicas ou da alimentação. Afinal, o bebê não sente fome somente de comida, mas também de amor, carinho, convocações e diálogos. Sim! Dialógos!

Pesquisas desenvolvidas em todo o mundo, como as desenvolvidas por Marie-Christine-Laznik na França, demonstram que os bebês respeitam os turnos comunicativos propostos por seus cuidadores em um movimento de interação com pulsões corporais, sons e olhares. É a partir da interpretação e das palavras maternas que as pulsões e movimentos corporais dos bebês são significadas e passam a ter um sentido dentro do campo da linguagem. Diante da fala da mãe, o bebê sente-se convocado e atraído a emitir respostas, o que o faz buscar formas de expressões para também chamar a sua atenção. Assim, a presença subjetiva desta mãe, ou do cuidador primordial, e o seu desejo em estar nesta relação possibilita o estabelecimento de vínculo formando um apego seguro entre mãe – bebê.

Neste contexto, a saúde emocional e física da mulher no período pós parto pode influenciar o processo de interação e construção de vínculo nos primeiros meses de vida do infans, tendo em vista que o mesmo consegue perceber as mínimas deficiências no estabelecimento da díade mãe – bebê, como nos casos de depressão materna pós parto. As interações estabelecidas entre bebês e mães deprimidas apresentam prejuízos em conteúdos de “diálogos” e sincronia na reversibilidade de turnos de comunicação e atos de carinho. Mães depressivas tendem a ser menos responsivas ao interagirem com os seus bebês que, por sua vez, tendem a apresentar menor interesse em situações de seu entorno.

Embora as conseqüências da depressão pós parto para a relação mãe- bebê seja um consenso na literatura, é importante ressaltar que, além dos fatores biológicos, outros como obstétricos, sociais, psicológicos e familiares, podem contribuir para a precipitação de um quadro de depressão que, por sua vez,tende a apresentar-se de forma atípica, não sendo perceptível por familiares e profissionais de saúde, haja vista o envolvimento da mãe com os cuidados necessários e intensivos nos primeiros dias de vida do bebê.

Assim, todos os profissionais de saúde que atuam no âmbito do período gestacional, da saúde da mulher ou da criança, devem estar atentos para a importância de identificar sinais sugestivos de depressão pós parto. Tudo isso em um período que naturalmente é bastante delicado para a mãe, que vivencia uma gama de sentimentos e experiências após o nascimento do bebê, que podem camuflar sofrimentos psíquicos, angústias e outros indícios da doença.

A identificação precoce desses sinais pelos profissionais pode promover intervenções de prevenção e promoção de saúde que tragam benefícios para a relação mãe – bebê, proporcionando ações de apoio específicas para cada nova mãe no enfrentamento de situações que lhe causem sofrimento ou da própria situação de depressão já instalada. Além disso, a identificação e intervenção precoce diante da mãe deprimida representam a possibilidade de assegurar a prevenção de prejuízos para a díade mãe – bebê e, consequentemente, para a relação de carinho, cuidado, diálogo e o estabelecimento do manhês, essencial para o desenvolvimento psíquico e de linguagem do bebê.

Patrícia Menezes Vilas Boas Lapa é Fonoaudióloga formada pela Universidade Federal da Bahia, com especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional – Faculdade São Bento da Bahia. Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Possui experiencia profissional em assistência na saúde pública com enfoque em clínica psicossocial, saúde mental, linguagem, aprendizagem, vulnerabilidade social, redução de danos e intervenção precoce. Experiência em gestão na saúde pública com saúde da pessoa com deficiência. Experiencia em orientação educacional em escolas privadas Experiencia em consultoria e orientação fonoaudiológica e psicopedagógica. Atualmente tem como principal atividade gestão em saúde pública, pesquisa em saúde mental, clínica com crianças, famílias e jovens.